Geólogo Fernando Kertzman –
Presidente da ABGE
Neste momento de tragédia a ABGE –
Associação Brasileira de Geologia de
Engenharia e Ambiental – manifesta sua
solidariedade com as vítimas das
calamidades enfrentadas em toda a região
sudeste do Brasil. Com mais de 40 anos de
atividades e reunindo centenas de especialistas na
questão de riscos geológicos, a ABGE
tem produzido alertas e propostas, no sentido de
procurar diminuir o impacto destes processos. Esta
carta tem por objetivo apresentar propostas para
gerenciar e diminuir os riscos naturais.
As ocorrências de deslizamentos de
encostas são processos naturais, que
resultam da combinação de chuvas
intensas sobre terrenos de alta declividade.
Aliás, as serras e escarpas são de
alta declividade porque os solos escorregam quando
encharcados. Este é o processo natural de
formação das encostas. É
assim que a natureza se comporta, e vai continuar.
Se o homem ocupa e mora nestas encostas, vai
sofrer as conseqüências.
As enchentes são
conseqüências do transbordamento dos
rios, em função do aumento das
vazões, outro processo natural. Normalmente
as várzeas e as margens dos rios ficam
secas em boa parte do ano, ou até mais
tempo. Por isso, são ocupadas. Mas quando
vêm as chuvas mais fortes, elas alagam.
Até aí nenhuma novidade! São
processos muito conhecidos, mas que os
órgãos de governo e a sociedade
“esquecem” e somente se dão
conta quando estas desgraças voltam a se
repetir. Neste momento aparecem verbas para
grandes obras e promessas, enquanto as
famílias atingidas velam seus parentes.
Há décadas isso ocorre em São
Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais no
verão e no Nordeste no inverno. Ou seja: o
Brasil não tem terremotos ou nevascas, mas
é atingido por chuvas torrenciais, que tem
efeitos catastróficos. É um problema
social, nacional, e é preciso aceitar e
enfrentar esta questão. De forma organizada
e com recursos contínuos, o ano todo,
prevenindo, cadastrando, retirando casas em risco
e limpando bueiros e rios.
O aumento da população e a
crescente urbanização fazem com que
cada vez mais áreas impróprias,
sejam ocupadas. Estas áreas são de
RISCO e teriam que ser mantidas com florestas e
parques. Porém, como cada vez mais
são ocupadas, teremos mais mortes e
tragédias nos períodos de chuva.
É preciso agir e reduzir as áreas de
risco. É urgente.
Existem diversos livros e tese sobre estes temas.
Congressos são organizados. O governo tem
cartilhas e programas. A cidade de São
Paulo acabou de cadastrar suas áreas de
risco, chegando a quase 500 locais. O Governo de
São Paulo tem um Programa Preventivo de
Defesa Civil. Estão iniciando o cadastro de
áreas de risco no estado do Rio de Janeiro.
Em Minas, Recife e Bahia existem programas
semelhantes. O Ministério das Cidades tem
manual e programas de cartografia de riscos. O
Brasil envia técnicos para eventos da ONU e
pessoal militar para auxiliar em acidentes no
mundo todo. Enfim, temos todo o conhecimento e
capacidade técnica. Sabemos o que fazer.
Mas não está dando certo. Não
é suficiente. Os acidentes continuam. Falta
gestão pública e recursos. Os
governos têm boa prática de Defesa
Civil e os Bombeiros são espetaculares.
Porém, atuam depois do acidente, socorrendo
e atendendo vítimas. É preciso
PREVENIR.
A proposta é simples: reorganizar o
Estado para atuar no conhecimento prévio do
problema e na implantação de medidas
de controle e diminuição dos riscos.
Profissionais já existem: são
dezenas ou centenas de geólogos e
engenheiros nos governos federais, estaduais e
municipais que estão sendo suutilizados e
de forma desorganizada. A criação do
Serviço Geológico Nacional, dos
Serviços Geológicos Estaduais e
Municipais seria um caminho. Não teria
custos adicionais. Grande parte do pessoal
já atua nas diversas entidades. Com 10% das
verbas que se anunciam nestas emergências
seria possível montar um Centro Integrado
de Gerenciamento de Riscos, aliando
esforços do governo federal e
órgãos estaduais: seriam mapeadas as
áreas de risco; cadastradas as
famílias; monitorados morros e rios;
realizados projetos de contenção e
de recuperação de áreas. Ou
seja, haveria as informações e os
dados necessários. Haveria
inteligência e prevenção, e
não somente “culpar a chuva” e
“correr atrás do
prejuízo”. Este investimento em
planejamento e prevenção traria
redução de custos para o governo,
tanto custos sociais quanto econômicos. A
ABGE se coloca à disposição
para aprofundar esta discussão.
ABGE – Associação
Brasileira de Geologia de Engenharia e
Ambiental