10 de outubro de 2019

A ‘maldição’ dos recursos naturais

Joseph E. Stiglitz
Prêmio Nobel de Economia e professor da Universidade de Colúmbia

“Países podem criar instituições, políticas e leis necessárias para assegurar que os recursos
beneficiem todos os cidadãos”
Novas descobertas de recursos naturais em vários países africanos — incluindo Gana, Uganda,
Tanzânia e Moçambique — levantam uma questão importante: serão uma bênção que trará
prosperidade e esperança ou uma maldição política e econômica, como tem sido o caso em
tantas nações?
Na média, países ricos em recursos têm tido pior desempenho do que os carentes. Têm
crescido mais vagarosamente e com maior desigualdade — o oposto do que seria de esperar.
Afinal, cobrar impostos altos sobre recursos naturais não os fará desaparecer; países cuja
maior fonte de receita são os recursos naturais podem usá-los para financiar educação, saúde,
desenvolvimento e redistribuição de renda.
Uma ampla literatura nas ciências econômica e política explica essa “maldição dos recursos”, e
grupos da sociedade civil (tais como Revenue Watch e Extractive Industries Transparency
Initiative) foram criados para tentar contê-la. Três dos ingredientes econômicos da maldição
são bem conhecidos:
-Países ricos em recursos tendem a ter moedas fortes, que dificultam outras exportações;
-O desemprego sobe porque extração de recursos gera reduzida criação de postos de trabalho;
-Preços voláteis de matérias-primas resultam em crescimento instável, o que é ajudado por
bancos internacionais que entram quando a cotação das commodities está em alta e saem na
baixa (refletindo o princípio de que banqueiros emprestam apenas para aqueles que não
precisam do dinheiro).
Além disso, países ricos em recursos com frequência deixam de adotar estratégias de
crescimento sustentável. Não reconhecem que, se não reaplicarem sua riqueza natural em
investimentos produtivos, estarão na realidade se tornando mais pobres. A disfunção política
exacerba o problema: conflitos em relação à renda produzida pela riqueza natural levam à
corrupção e a governos não democráticos.

3 de outubro de 2019

AGÊNCIA NACIONAL DE MINERAÇÃO LANÇA PLATAFORMA DIGITAL

A Agência Nacional de Mineração (ANM) lançou hoje (1°) o Protocolo Digital, sistema que irá centralizar requerimentos minerários de todo o país. Serviços como solicitação de pesquisa e lavra, poderão, a partir de agora, ser enviados através do canal, em qualquer dia da semana e horário.

O Protocolo Digital reúne 44 tipos de serviço e apresenta uma interface que visa facilitar o uso. Em apenas três etapas, o usuário do sistema consegue dar entrada em qualquer protocolo.O programa dispõe de uma tela de auditoria, através da qual se pode visualizar o que ocorre em tempo real. No novo canal, é possível que se requeira uma área para lavra em menos de 20 segundos. Para se ter acesso ao Protocolo Digital, a pessoa física ou representante de pessoa jurídica deve efetuar cadastro no login, criar uma conta e obter os selos e-CPF ou e-CNPJ, conforme for o caso. É necessário ainda obter um certificado digital de qualquer autoridade certificadora, que podem ser encontradas no endereço.
Durante o primeiro ano de transição, todos os usuários que já possuem registro no Cadastro de Titulares de Direitos Minerários poderão utilizar o Protocolo Digital com a mesma senha. Mais informações podem ser obtidas através do site.
Fonte:  Agência Brasil -EBC

24 de setembro de 2019

MME DESIGNA TITULARES DE GRUPO DE TRABALHO PARA AGILIZAR PROCESSOS NA ANM

O Ministério de Minas e Energia (MME) publicou, nessa quarta-feira (11/09), a Portaria nº 145, nomeando os integrantes do Grupo de Trabalho responsável pela elaboração das propostas para agilizar os processos de autorização de pesquisa e concessão de lavra da Agência Nacional de Mineração (ANM).
Representando a Secretaria de Geologia, Mineração e Transformação Mineral (SGM) do MME, foram nomeados a Secretária Adjunta da SGM, Lilia Mascarenhas Sant ́Agostino, que irá coordenador o Grupo de Trabalho; e o Diretor do Departamento de Geologia e Produção Mineral da SGM, Frederico Bedran Oliveira. Pela ANM, foram designados membros do Grupo deTrabalho, o diretor-geral Substituto da Agência, Tasso Mendonça e o Superintendente de Pesquisa e Recursos Minerais, Carlos Cordeiro Ribeiro.
O Grupo de Trabalho, instituído em agosto, foi criado para agilizar os processos em tramitação no âmbito da ANM,pendentes de solução por longo período.
Fonte: Notícias de Mineração.

17 de agosto de 2019

MPF PEDE QUE JUSTIÇA OBRIGUE AGÊNCIA DE MINERAÇÃO A CANCELAR PERMISSÕES DE LAVRA GARIMPEIRA

Fraudadores registram garimpos de fachada para extrair ouro ilegal através de lavras autorizadas.

O Ministério Público Federal (MPF) pediu à Justiça que a Agência Nacional de Mineração (ANM) cancele todas as Permissões de Lavra Garimpeiras (PLGs) com prazo de exploração vencido e as permissões cujos relatórios anuais de produtividade não tenham sido apresentados ou que não tenham informado a produção efetiva da lavra.
Em alerta do MPF são elencados pontos que facilitam aos criminosos a comercialização do ouro. Já que, assim, os fraudadores enganam a fiscalização, utilizando a área concedida para extrair ouro, através
das milhares de lavras com exploração autorizada, mesmo que o prazo para exploração tenha vencido sem que os trabalhos tenham sido iniciados, ou que a prestação anual de contas registre produção nula ou incompatível com a indicada em notas fiscais. 
De acordo com o MPF, o que ocorre é a falta total de informatização do sistema de controle, falta de fiscalização, somada a uma legislação ultrapassada, que desconsidera a entrada das empresas de mineração de escala industrial.
Ao ser negligente com a fiscalização do uso das permissões de lavras garimpeiras e a produtividade, o país incentiva o crescimento desse mercado. Como essas permissões são negociáveis, e não há limite para o número de permissões que uma empresa ou uma pessoa podem ter, e as lavras não são fiscalizadas, especuladores buscam obtê-las em massa, apenas para revendê-las. 

Facilidade no ‘esquentamento’

 Em ações ajuizadas este ano, com base em provas obtidas em investigação inédita, para esmiuçar o funcionamento de uma das maiores empresas compradoras de ouro no maior polo da mineração ilegal no Brasil, a bacia do Tapajós, no sudoeste do Pará, o MPF em Santarém exemplifica como o “esquentamento” (acobertamento) da origem ilegal do ouro é facilitado pelo não cancelamento de PLGs de áreas não exploradas ou que apresentem relatórios de produtividade sem indicação da produção efetiva.
O posto de compra da Ourominas registrou em 704 notas fiscais que a maior parte do ouro adquirido pela empresa entre fevereiro de 2017 a maio de 2018 um total de 81 quilos do minério tinha sido extraído de três áreas com PLGs válidas. No entanto, a detentora das permissões informou à investigação que a extração sequer tinha sido iniciada. 
No total, só de 2015 a 2018 foram feitas 4,6 mil transações ilegais pelo posto da Ourominas em Santarém, perfazendo 610 kg do minério adquiridos de maneira ilícita, um prejuízo de R$ 70 milhões à União. E esse prejuízo pode ser muito maior, tendo em vista que o valor foi calculado com base nas indicações das notas fiscais, que são preenchidas apenas pelos criminosos, com indicações bem inferiores ao valor de mercado. 
Só na bacia do Tapajós são comercializadas ilegalmente 30 toneladas de ouro por ano R$ 4,5 bilhões em recursos não declarados , seis vezes mais que o comércio legal na região. Esse número pode ser bastante maior, tendo em vista que o descontrole sobre a cadeia econômica do ouro não permite que exista a garantia de uma mínima margem de acerto nas projeções sobre o volume de minério comercializado ilegalmente. 
Desde o final de julho o MPF tem publicado uma série de notícias para resumir as várias fragilidades do sistema de controle da cadeia do ouro possibilitam a atuação de organizações criminosas como a denunciada pela instituição e geram prejuízos financeiros, sociais e ambientais de proporções devastadoras.  
Também estão sendo descritos os pedidos feitos pelo MPF à Justiça relativos às instituições públicas e às empresas processadas. 

Fonte: G1 
Data: 12/08/2019

15 de agosto de 2019

PLG x MME/SGM/ANM: Pedido de Filho Adolescente ao Pai

Nesta 3a feira (13/08/2019) foi realizada uma audiência pública com um Grupo de Trabalho do MME/SGM/ANM que está cuidando dos tramites para a Permissão de Lavra Garimpeira e a "turma do garimpo".

Como esta região Oeste do Pará tem interesse profundo em continuidade dos trabalhos de Lavra Garimpeira (pesquisa de opinião realizada pelo Jornal do Comércio, através do Jota Parente determina que mais de 60% dos moradores de Itaituba dizem depender do garimpo de ouro) muitos apareceram no auditório de Hotel Apiacás para ouvir e se pronunciar sobre o assunto.

Claro que esta manifestação parece aquele pedido de algo quase impossível do filho adolescente ao pai que, depois de ouvir, não resolve nada e ainda manda pra mãe: "Se ela deixar...tudo bem."

Muitas histórias e sugestões fora feitas e muitas outras reuniões serão realizadas para que se defina o melhor modelo de Permissão de Lavra Garimpeira.

29 de julho de 2019

Leilão da ANM tem ouro, diamantes e esmeraldas


No próximo dia 07/08, a Agência Nacional de Mineração realiza, em São Paulo, um leilão de barras de ouro, diamante, esmeralda e até joias. Os bens minerais são provenientes de fiscalizações e apreensões de lavra e comércio ilegal feitas pela Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Receita Federal e pela própria ANM. São 59 lotes com valores iniciais que vão de R$ 106 a R$ 475 mil. O edital foi publicado nesta terça-feira (23) no Diário Oficial da União e está disponível no site da ANM.
Ouro em estado bruto, barra de ouro fundido, esmeraldas e diamantes (brutos e lapidados), águas marinhas, quartzo fumê, topázios, zircônias e até colares e anéis de ouro fazem parte do leilão – apto para pessoas físicas e jurídicas.
Em lotes que têm diamantes não é necessário estar inscrito no Cadastro Nacional de Comércio de Diamantes – CNCD para participar. Mas se o comprador desejar comercializar o diamante arrematado em bruto deverá estar inscrito no CNCD e, se quiser exportá-lo, deverá requerer o Certificado KIMBERLEY junto à ANM.
Este é o primeiro leilão que a ANM realiza em 2019. A previsão é que mais dois aconteçam ainda este ano, com outros dois tipos de minérios. O certame é presencial e será realizado pela CAIXA, que possui um contrato com a ANM de custódia dos bens, avaliação e leilão. Além do valor da arrematação, o arrematante precisa ainda pagar uma tarifa de 5% à CAIXA e de 18% de ICMS.
Os interessados terão das 10h às 15h do dia 05/08/2019 para visitação pública dos bens minerais, e das 10h às 15h do dia 06/08/2019 para manuseio das peças. O leilão acontece das 10h às 16h, nas dependências da Agência Sé da Caixa Econômica Federal em São Paulo, na Praça da Sé, 111 – 2º andar, Centro, mesmo local da exposição.
Fonte: ANM

4 de abril de 2019

Sobre Barragens...


Comentários sobre as Bacias de Rejeitos de Mineração no Pará – Itaituba


O MEMO CIRCULAR Nº 01/SPM/GSBM – 2019, de 1° de fevereiro de 2019, enviado aos Gerentes Regionais orienta para que “na Resolução nº 1, de 28 de janeiro de 2019 do Conselho Ministerial de Supervisão de Respostas a Desastres, que determina em seu item V do art. 3°, que sejam imediatamente realizadas fiscalizações nas barragens, de modo a priorizar aquelas classificadas como possuidoras de "dano potencial associado alto" ou com "risco alto".
No Pará temos 69 bacias de rejeitos cadastradas/informadas a ANM (antigo DNPM). Existem 2 bacias de rejeitos cadastradas no município de Itaituba, ambas pela Serabi Mineração S.A., as quais atendem pela denominação “Bacias de Rejeitos 16 e 17”, que passaram por fiscalização recentemente, sendo as mesmas consideradas de “nível de risco e impacto médio”.
Claro que existem outras orientações no citado Memo Circular, mas não teria a Serabi tomado a precaução de rever os parâmetros de segurança de barragens, após os desastres ocorridos em Mariana e Brumadinho, além de convidar o Legislativo e Executivo Municipal para fazer uma visita protocolar?
Acredito que a interdição se refere a orientação “o cumprimento do Manual de Fiscalização de Barragens de Mineração da ANM deverá ser seguido visando a homogeneização e a padronização dos procedimentos e por ser o modus operandi oficial da ANM”.

21 de fevereiro de 2019

TRAGÉDIA DE BRUMADINHO: AS PRINCIPAIS TÉCNICAS PARA LIDAR COM 'LIXO DA MINERAÇÃO' QUE FORAM IGNORADAS PELA VALE

Via Boletim ADIMB:


O que a mineração trata como lixo já foi transformado em tijolo, pavimento, telha, ladrilho hidráulico, madeira plástica, concreto asfáltico, pigmento, sais para saneamento básico e até mesmo em mais minério.

Da lama e da areia que sobram do beneficiamento do minério, normalmente ricas em quartzo, óxido de ferro e argila, foram construídas casas protótipos em Ouro Preto (MG) e em Pedro Leopoldo (MG), além de um espaço de convivência num shopping em Belo Horizonte e do calçamento de um bairro em Guarapari (ES).

Em parceria com universidades, mineradoras e o poder público financiaram projetos que provaram ser bem-sucedidos como solução não só para evitar o armazenamento de rejeitos em barragens por meio do beneficiamento a seco do minério como também para reciclar resíduos, transformando-os, principalmente, em insumos para a construção civil.

Para Alberto Sayão, professor de engenharia civil da PUC-Rio, a principal alternativa a ser pensada é reduzir a quantidade de água usada no beneficiamento do minério. "Os rejeitos têm muita água porque o método mais usado hoje é por via hidráulica. A água fica armazenada nos reservatórios e isso representa um risco enorme, como temos visto nos últimos anos com uma série de rompimentos", afirma. O professor lembra que, além disso, mineradoras têm optado pelo tipo de barragem chamado "a montante", considerada a mais barata, a que ocupa menos espaço e, também, a menos segura -esse tipo de construção foi proibido em Minas depois que a Mina do Feijão, da Vale, rompeu em Brumadinho em janeiro, deixando mais de duas centenas de mortos e desaparecidos.

A Justiça em Minas proibiu novos licenciamentos, e o governo mineiro deu três anos para o fechamento de todas as 50 barragens a montante no Estado -dessas, 27 ainda estão em operação. Não se sabe, contudo, se as empresas vão investir em métodos alternativos, ou se vão continuar usando outros tipos de barragens.

Beneficiamento a seco
No mercado, já há pelo menos duas metodologias de deposição a seco de rejeitos. Uma delas propõe a filtragem e a compactação do resíduo (em forma de pilha ou disposto em locais de descarte de materiais). A outra usa uma tecnologia chamada de pasta mineral, que promove o adensamento de material muito fino. A Vallourec, empresa que opera em Minas e mantém um centro de pesquisas instalado no Parque Tecnológico da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), já usa um equipamento chamado de filtro prensa, que dispensa a construção de barragens. 

Depois de cinco anos de pesquisa para eliminar os riscos de instabilidade inerentes às barragens, a Mina Pau Branco, em Minas, passou a operar em novembro de 2015 com o filtro prensa que retira água dos rejeitos e permite o empilhamento dos resíduos drenados. "Mas esse equipamento ainda é caro", afirma Sayão, lembrando que a água filtrada pode ser reutilizada no processo de beneficiamento do minério. No entanto, o beneficiamento a seco ainda é exceção no mercado da mineração, em especial em Minas Gerais.

As barragens são responsáveis pela destinação de 94,6% dos rejeitos da mineração de mais de 300 empresas em Minas Gerais que, em 2017, contribuíram para a produção de 562 milhões de toneladas de descartes -metade desse montante é de rejeitos, como os que varreram Brumadinho em janeiro e recentemente forçaram a retirada de famílias que vivem perto de barragens em Itatiaiuçu e em Barão de Cocais, em Minas, diante do risco de rompimento.

Esses dados são do Inventário de Resíduos da Mineração 2018, divulgado pela Feam (Fundação Estadual do Meio Ambiente de Minas) em janeiro e que leva em conta a produção de 2017.Dos rejeitos da mineração em Minas, além das barragens, se usam numa proporção bem menor os métodos de pilha (2,87%), bota fora (0,72%) e depósito de estéril (0,66%). A Feam não especifica o método responsável pelo 1,72% restante.

Os números indicam ainda que empresas têm ignorado várias técnicas da mineração que permitem não apenas a eliminação de barragens no processo de beneficiamento do minério de ferro como também o reaproveitamento de rejeitos, em especial na construção civil.

Reciclagem de rejeitos
Se depender dos projetos elaborados nas universidades em Minas Gerais, muitos deles em parceria com as próprias mineradoras, os resíduos do beneficiamento a seco e mesmo os armazenados em barragens podem ser reutilizados, principalmente na construção civil. Apesar de haver um certo estigma entre empresas e consumidores em relação a material produzido a partir dos resíduos da mineração, pesquisadores garantem que o rejeito não é tóxico, corrosivo nem inflamável.
"O processo da mineração é hidrofísico, portanto, essa lama não representa risco toxicológico", salienta Ricardo Fiorotti, professor de engenharia e integrante do Grupo Reaproveitamento de Resíduos e da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto).
Coordenador do projeto que usa rejeitos da mineração e da siderurgia para erguer uma vila sustentável de casas populares no campus da Ufop, Fiorotti destaca que os resíduos do processo da mineração permitem reduzir o uso de matéria prima como areia e brita.
Desde 2005 pesquisando reciclagem de resíduos da mineração, Fernando Soares Lameiras, professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e pesquisador do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear, ele explica que já existe tecnologia que dispensa, por exemplo, alterar a composição ou fazer beneficiamento especifico para transformar resíduos em insumos para construção civil, como tijolo, telhas, blocos. Já o uso da lama para pigmentos, observa o professor, exige processamento especial. "O mais importante é, antes de iniciar a produção, demonstrar que o material não é perigoso e que cumpre as especificações da ABNT [Associação Brasileira de Normas Técnicas]. Essa tem que ser a primeira preocupação", completa Lameiras.

Segundo os professores que se dedicam a reciclar resíduos, a China é referência mundial em reutilização de rejeitos da mineração. "A Austrália já faz, mas a China é a mais adiantada. Fazemos exatamente os mesmos produtos que eles, a diferença é que eles fazem em escala industrial. Isso é frustrante pra gente", lamenta Lameiras.

Telhas com qualidade superior
A Universidade Federal de Lavras (Ufla) usou resíduos do Fundão, depois que a barragem da Samarco rompeu em Mariana em 2015, para desenvolver uma série de produtos como piso, tijolo, blocos e telhas. O professor Rafael Farinassi Mendes, responsável pela pesquisa, diz que o material que desenvolveu tem um diferencial: o uso de fibras vegetais para potencializar a durabilidade e o conforto térmico.
"Nossas telhas já têm qualidade duas vezes superior à das disponíveis no mercado", defende Mendes.
O professor diz que o laboratório da Ufla ficou pequeno demais, já que sua equipe conseguiu aplicar a tecnologia em escala industrial. Três empresas de Lavras, uma cidade de 100 mil habitantes no Sul de Minas, já se mostraram interessadas em produzir o material a partir do resíduo da mineração. Falta, contudo, matéria-prima, diz Mendes.
"A gente tinha conversado com a Vale, que ficou de indicar uma ou mais barragens, mas as conversas ainda não avançaram como gostaríamos, estão paradas há oito meses", conta.

Casas erguidas da lama
O projeto Reciclos, da Ufop, ganhou prêmio por propor uma vila sustentável com casas populares construídas com rejeitos numa área da universidade. O concreto, a argamassa, os blocos para alvenaria e para pavimentação foram produzidos a partir de rejeitos retirados de barragens de mineradoras. As casas são protótipos que usam ainda energia solar, cobertura verde e tecnologia para reutilizar a água.

Ricardo Fiorotti, professor de engenharia e integrante do Reciclos, diz que o projeto foi apresentado a mineradoras e, se tivesse já sido aplicado fora dos laboratórios da universidade, poderia reduzir consideravelmente os níveis das barragens de rejeitos e economizar no custo total de uma obra. Mas, por falta de recursos, o projeto está parado desde 2016. 

"Os recursos da pesquisa foram contingenciados. Infelizmente está tudo parado naquele ponto, à espera de financiamento", diz Fiorotti. "É possível reutilizar os resíduos da mineração de forma econômica e dá para fazer dinheiro com rejeitos, mas a escala da mineração envolve valores muito altos. Essas técnicas alternativas parecem não atrair muito o interesse das mineradoras", observa.
A UFMG também já produziu uma casa protótipo com o que um dia foi lama de barragem. Ela fica no Laboratório de Geotecnia e Geomateriais de Produção Sustentável da UFMG, na cidade de Pedro Leopoldo, na região metropolitana de Belo Horizonte.
Desde 1997, a universidade desenvolve técnicas para transformar os coprodutos da mineração em diferentes insumos para construção civil, como tijolo e cimento.

Espaço de convivência em shopping
Outro método desenvolvido nos laboratórios da UFMG é a pelotização de rejeitos. As pelotas podem ser usadas na produção de concreto para substituir a brita. Os pesquisadores já provaram que a lama da mineração pode ser transformada em material mais refinado.

Com a ajuda do CDTN (Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear), rejeitos da Samarco foram aplicados na primeira fazenda urbana da América Latina. É um espaço de produção de hortaliças sem agrotóxicos, de criação de peixes e de convivência que funciona dentro de um shopping na capital mineira.

Desde 2017, quem passa pelo Boulevard Shopping pode caminhar, sentar e observar de perto o resultado do processo que transformou lama e areia da Samarco em blocos intertravados, usados como piso, e em madeiras plásticas, usadas na fabricação de decks, mesas e cadeiras do espaço ao ar livre.
"A lama também foi usada como pigmento para pintar e colorir o espaço", diz Fernando Soares Lameiras, professor da UFMG e pesquisador do CDNT, que participou do projeto piloto.

Por que as mineradoras não investem?
Mas, segundo pesquisadores, para esses projetos deixarem de ser protótipos, saírem dos laboratórios ou experiências isoladas e passarem a ser produzidos em escala industrial, ainda é preciso convencer as mineradoras a investirem em métodos a seco e a cederem matéria prima, além de ser necessário incentivo governamental para concorrer no competitivo mercado da construção civil.

"Rejeito é o lixo da produção mineral. É custo para as mineradoras, não representa benefício e elas preferem descartar da maneira mais barata possível. É uma questão de preço, é um problema econômico", diz o professor de engenharia civil da PUC-Rio Alberto Sayão.
Para Sayão, é por isso que mineradoras ainda optam pelas barragens a montante, consideradas mais baratas, que ocupam menos espaço e, ao mesmo tempo, são tidas como mais perigosas.

O professor Fernando Soares Lameiras, da UFMG, diz ser preciso mais que tragédias para mudar o armazenamento e uso de rejeitos da mineração. Ele defende mudanças na legislação para estimular as empresas a investirem em técnicas alternativas. "Para a mineradora, tirar o rejeito tem um custo, e benefícios fiscais podem facilitar esse processo", diz, emendando que também é preciso de incentivos para que os produtos para a construção civil feitos dos rejeitos sejam competitivos num mercado onde a concorrência é forte.

O professor Rafael Farinassi Mendes, da Universidade Federal de Lavras, avalia que uma legislação que obrigue as mineradoras a reciclar uma porcentagem de seus rejeitos ou mesmo que incentive o poder público a fazer obras usando essa tecnologia desenvolvida em universidades pode ser um bom começo.

"A consciência vai aumentar. Com o que aconteceu em Mariana, já mudou bastante, mas não o suficiente", completa Lameiras, dizendo que as universidades deixaram apenas de testar produtos e passaram a ir ao mercado para tentar viabilizar negócios. "Se deixar só na mão das empresas e do poder público, não anda tão rápido quanto gostaríamos", afirma, ponderando que as universidades deram um passo adiante e, além de desenvolver tecnologia, têm buscado investidores e tentado mobilizar a indústria da construção civil a apostar no uso de rejeitos.

Alberto Sayão diz que neste ano haverá uma série de debates com entidades de engenharia, especialistas e acadêmicos em diferentes cidades do Brasil para tentar propor soluções viáveis para as mineradoras. Os encontros contam com o apoio do Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração), que reúne empresas do setor.

Procurado para falar sobre técnicas alternativas, o Ibram informou que "no momento não dispõe de alguém para conceder entrevistas" e sugeriu o nome de dois especialistas que não são do quadro da entidade, além de uma série de estudos disponíveis no site do instituto.

O que diz a Vale
A Vale informou que usa tecnologia de processamento a seco para os minérios de alto teor, tanto em Minas Gerais, quanto no Pará, desde 2013. Informou ainda que também já reaproveita material armazenado em barragens "fazendo reprocessamento e gerando produto".

Não esclareceu, contudo, por que ainda não indicou as barragens para a parceria com a Ufla nem qual é a maior dificuldade para abandonar o uso de barragens e reciclar rejeitos.
Em Minas, segundo a empresa, "o processamento a seco foi ampliado de 20%, em 2016, para 32% em 2018". Um exemplo citado pela Vale é a planta da Instalação de Tratamento de Minério da Mina do Pico, em Itabirito, que foi modificada para 100% de produção a seco.
O plano da Vale, de acordo com a assessoria de imprensa da empresa, é aumentar a parcela de produção a seco para 70% em 2023, e, consequentemente, reduzir a utilização de barragens nas operações.

Adicionalmente, informa a Vale, para tratar rejeitos de processamento a úmido, a mineradora planeja investir, a partir de 2020, aproximadamente R$ 1,5 bilhão na implementação de tecnologia de disposição de rejeito a seco.

"O processo a seco está atrelado ao teor do minério de ferro, quanto mais alto o teor, mais é favorecida a adoção do processamento a seco, sem uso de água. Tecnicamente, a mudança consiste na utilização de peneiras de classificação de alta aceleração", explica a empresa.

Segundo a Vale, atualmente, 60% das operações da empresa já usam o beneficiamento a seco.  mineradora diz ainda que, além do processamento a seco, a empresa vem adotando diversas melhorias para ampliar a recuperação metálica nas usinas, reduzindo a quantidade de rejeitos. 

"Em uma iniciativa prevista na mudança da prática operacional, a Vale está estudando separar o rejeito fino (lama) do rejeito grosso (areia). Atualmente, ambos são misturados em uma única barragem. 

A Vale está estudando a disposição em pilhas para o rejeito grosso, reduzindo significativamente a necessidade de novas estruturas", diz. "A Vale também reaproveita o material armazenado em barragens de alto teor, fazendo o reprocessamento e gerando produto, como a barragem do Geladinho, no Pará, e as barragens do Rio do Peixe e de Pontal, em Minas Gerais, além de outros projetos em implantação, como o projeto do Gelado (PA)".


Fonte: BBC News
Autora: Fernanda Odilla
Data: 17/02/2019