Geologia e Ambiental

2 de março de 2011

Meus 60 Anos

Recebi esta crônica e devo compartilhá-la com vocês.
Apesar de ser longa é estimulante como tem sido a minha vida inteira.


Crônica a alguém que completa 60 anos.
Num dia desses me peguei encantado com uma palavra que saltou bem do meio de uma história para o imenso céu da minha imaginação. Como uma bolha de sabão que emerge, brilha, dança ao vento. Vira e mexe ela voltava e deixava o fio da história que se seguia ainda mais para trás. Soberana e pungente a palavra “ardência” me fazia conectado, atento àquele incômodo feliz.
Estava ela inerte no dicionário: qualidade, caráter ou estado de ardente”. Ardente: “que arde, cheio de paixão, apaixonado, intenso, enérgico, vivo. Estar aceso”. Vívido. Assim ficava o adjetivo ressuscitado pela viagem do meu pensar. Entreguei-me a ele por alguns instantes, brincado com a sua plurissignificância e me perdi na minha própria história, recriada naqueles breves instantes do existir. Penso que a vida da gente é isso.
Ainda num outro dia me fizeram a pergunta que pode soar fatídica ou embaraçosa: que idade você tem?
Instintivamente tive um rasgo de vislumbrar o filme da minha vida quando era menino de interior, quando pulava muros, subia pela boa aventura das árvores para colher as jabuticabas, as goiabas. Para mim, nesse viés do tempo, 60 anos era a idade do papai Noel. Agora não é bem assim.
Todos me dizem, com uma leve e certeira ameaça que ser sexagenário não é algo fácil. Nem com as leis quase protetoras. Pensei: o que é fácil? E completam: “mas você está bem, está ótimo. Nem parece ter a idade que tem!” Repensei sobre a questão: sobre ser o que somos e na idade que temos.
Por conta deste mote, fiquei brincando com essa idéia e fui me ensinando que quando fazemos um aniversário, ou seja, adicionamos mais um ano na nossa coleção, nada mais somos do que um resultado desse percurso pela vida. O último dia dos 59 anos não será quase nada diferente do primeiro dia dos 60 anos. Um ano de diferença talvez seja pouco perceptível também, a menos que sejam vivificados pela nossa memória seus momentos mais marcantes.
O que podemos saber e sentir é o que vamos acumulando nas histórias das quais somos reais protagonistas. Posso sentir o menino interiorano intacto dentro de mim que ressurge e acontece num mundo paralelo ao da existência real e presente. E isto confere à vida maior ardência, afeto e beleza.
Tenho procurado saber usufruir as sutis ignorâncias e os pequenos prazeres disponíveis ao nosso redor: ativar uma receita esquecida; inaugurar um jeito exótico de temperar uma salada; arriscar uma combinação inusitada de frutas; usar um perfume engenhoso para alimentar nosso olfato e o dos que nos rodeiam; escrever uma frase, uma poesia; trazer uma música perdida e resgatá-la da lembrança para a luz e para a sonoridade dos dias comuns; experimentar uma visita a alguma breve surpresa como usar uma cor diferente, inebriante para algum terceiro olhar; elaborar um roteiro de viagem para fazer algum dia, de preferência logo; experimentar um sorvete aguçador de aromas, por exemplo, pêra com água de coco ou frutas cítricas com hortelã e gengibre; virar uma espécie de turista de si mesmo e no seu próprio cotidiano. Por aí. Tudo vale se chega ao alcance da mão e se exercita a nossa capacidade criadora. Penso que a sutileza e a ardência combinam com essas atitudes, sobretudo com quem se situa perto dos 60 anos. Meio apogeu de um percurso e início de outro.
Releio rapidamente o que está escrito acima e sinto que se parece um pouco com crônica de culinária e um tanto de filosofia ingênua. Mas não é. Pode ser até que eu esteja esboçando de leve e sem querer uma das possíveis receitas de viver. Bem viver. É que estas palavras emergem a partir de algumas conversas com alguns amigos de todas as idades. E dessa experiência humana de fazer aniversários, sobretudo desses últimos. Tenho vivenciado e nutrido uma frase que pode talvez explicitar melhor o que quero dizer.
Quando me perguntam a minha idade, tenho respondido o que sinto pungentemente em mim: “sou a versão mais atualizada e possível de mim mesmo”. Algumas pessoas parecem não entender o sentido dessa minha quase máxima, aqui revelada com todas as letras. Outras olham direto para o alto, como se os olhos fossem passarinhos voadores. Parecem levá-la para casa para depois repensá-la e compreendê-la melhor. E guardá-la, talvez para uso posterior. Comparo-me a um texto que, numa primeira versão, guarda as potencialidades emaranhadas junto aos visíveis “erros” e às tentativas de escrever bem, para a outridade. Como no escrever, escrever-se é nossa atividade permanentemente possível e aberta para rever, buscar novos acertos e novos caminhos de escrita. Inventar a letra e inventar a vida. Assim penso que é a nossa idade, representativa de nossas experiências e de nossas possibilidades. Temos um campo de destinos e escolhas em aberto. Somos rascunhos humanos que se aprimoram ininterruptamente. Imperceptivelmente. E temos o limite implícito da Natureza, de escrever e ser.
Somos, como os textos, estados de criação permanente, passiveis de reescrita e aprimoramento. Por isso, podemos nos aperfeiçoar e dar novos rumos a nossa vida. Nascidos e legitimados pelos escritos de nós mesmos. Guardamos dentro de nós tudo o que vivemos. Somos um patrimônio histórico e existencial plenamente possível e inesperado. Nosso livre arbítrio e desejos íntimos dialogam com os limites que nos cercam, nos conduzem e nos regularizam. Podemos fazer vigorar as nossas memórias mais pungentes, aceitar um convite parecido com os da juventude e quiçá não embarcar em situações já sabidas de intensas dores e atribulações. Temos, pelos anos posteriores já vividos, uma combinatória indescritível a nosso favor: um encantamento quase infantil, um desencanto sentimental, um chacoalhar de desesperança ou perda irreparável, o leve desabrochar de um sonho...
Com 60 anos podemos usufruir dessa coleção inimaginável de sentimentos vividos, de experiências situadas, de luzes e sombras que nos situa e nos outorga um lugar ímpar de autores da vida. Essa cronologia, desordenadamente sentida, nos faz únicos, genuínos e poderosos na recriação do nosso viver. Acredito nisto. Nessa energia vital que nos dá força e poder. Em síntese, fazer 60 anos ou qualquer idade é sempre um resultado de algo que se foi vivendo, construindo, se acumulando. Não é uma coisa imediata, que se fecha, se abre ou começa de algo que se acabou. Nosso repertório de vidas de nós mesmos nos dá esse sentido de atualizado e possível. Somos inéditos e inexatos.
Por que não viver pequenos acontecimentos da vida que se oferecem, menos espertos e virgens ao nosso cotidiano, à espera do milagre do acontecimento e do usufruir? Por que não plantar rosas, esperar despontar a dança das pétalas, colher a maravilha da cor e do perfume bem esperado e depois testemunhar o seu esvanecer? Por que não escrever o próximo escrito? Por que não planejar uma visita às casas de Neruda, no Chile ou de alguém que tenha uma vida tão extraordinária a nos dignificar? Por que não fazer agora um bolo de frutas, esperar o cozimento acompanhando as texturas de ficar pronto e depois, saboreá-lo com cheiro de café com luz de alguma janela testemunhando a vida passando como um desenho desacostumado? Por que, ao varrer as folhas do chão, não saborear, impregnar-se por alguns instantes na cintilação das cores das folhas mortas, de seus diferentes tons? Falo de simples exemplos de breves sonhos possíveis e encantamentos que só sabemos o que nos faz assim. Com certeza, se escrevesse daqui a pouco ou mais adiante poderia elencar outras ações bem banais de se realizar na nossa vidinha comum e corriqueira e assim dignificá-la com o sabor da nossa criação e vivência plena e simultânea. Quantas pessoas ainda não viram o mar? Quantas guardam em si a beleza de tocar um instrumento? Quantas ainda vislumbram as sementes do futuro? Todo o imprevisível humano pode ser planejável e querido. Desejado intimamente. E a vida vai se ampliando pouco a pouco.
É o que guardam estes exercícios. Outras tarefas. Assim como a parreira guarda o vinho que será servido num dia indefinido e quase indecifrável. Mas, plenamente possível. Como o amor, que lateja em si todos os seus infinitos movimentos e arranjos de amar.
Todos os nossos aniversários estão disponíveis dentro do nosso íntimo. Como uma biblioteca de nós mesmos. Ou site de sangue e inteligência que se move vertiginosamente, como uma ânsia ancestral de atualizar-se. Concordo que com 60 anos não teremos imenso vigor e força nos músculos e nos movimentos da carne como nos idos adolescentes. Em compensação, o nosso treino de lidar com essa academia de dar sentido às coisas da vida nos faz mais ágeis em sentimento. Presumo. E isso é admirável. Podemos repensar melhor, usufruir melhor dos próximos feitos, pois temos a luz imbatível do já vivido. Daí que “ser a versão mais atualizada da gente mesmo” nos dá limites e nos outorga novas possibilidades.
Pense nisso, se eu não tenho alguma razão de falar dessas coisas assim descaradamente. Independentemente da idade que tenha, da sua janela, do seu rascunho de agora, você poderá olhar para a sua vida e se aperceber disso. O que lhe dá ardência na vida? O que lhe faz sonhar e agir com vigor e plenitude? Minhas mãos se iluminam a cada exercício dessa quase completude. Há desdobramentos e sempre recomeços da alegria. Muitas vezes nascidos de pequenas dores. Ou de uma sempre desordem para se reorganizar. Um atalho que pode vislumbrar uma clareira, nossas cores adormecidas. Um mergulho para trazer a tona um segredo, uma poesia, um pequenino clarão.
Talvez com 60 anos já teremos aprendido a buscar no já vivido alguns motivos de levar a vida com ardência.
(Antonio Gil Neto)


À você Jubal, o desejo de que Deus sempre te proteja e que permaneças por mais 60 com esta ardência...
Um carinhoso abraço e mil beijos. Parabéns!


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