Geologia e Ambiental

27 de junho de 2010

O Complemento

Quatro séculos depois do início da exploração de ouro e pedras preciosas em Minas pelos portugueses, garimpeiros ainda estão à caça - em condições subumanas - do tesouro que brota nas águas mineiras. Em Mariana, cidade que foi a primeira capital do Estado, o garimpo acontece diariamente, em rio onde são despejados esgoto e lixo e onde os ratos dividem a imundície com as baratas. O município, que é um dos 199 integrantes da Estrada Real - roteiro criado há 11 anos para captar o turista disposto a passear pela história do Brasil e pela exuberância das montanhas das Gerais, e que já consumiu R$ 37 milhões - , é também casa para centenas de pessoas que arriscam a vida no Ribeirão do Carmo. Mas a estrada, grande como é - mais de 1.600 quilômetros -, tem diversas faces. A mais bonita - já fomos à consagrada Diamantina, às bucólicas São Gonçalo e Milho Verde, ao queijo do Serro e à conturbada Conceição do Mato do Dentro - mostra-se na pequena Ipoema, onde gente que vivia de favor no passado, graças ao turismo, conquistou teto, emprego e felicidade.
Fonte: Hoje em Dia




Muitos moradores de Mariana esperam ainda hoje que o caminho que já foi rota de saída de riquezas possa se redimir, trazendo renda e dignidade. Enquanto o número de turista permanece estagnado e o comando da prefeitura virou caso de polícia, pelo menos mil marianenses que vivem na periferia buscam seu pedaço do tesouro nas águas emporcalhadas do rio que era destaque no ciclo colonial. E encontram. Em semana de sorte e trabalho intenso, das sete horas da manhã até o final da tarde, o garimpeiro acha, no máximo, cinco gramas de ouro. Por um grama, recebe em torno de R$ 40.

“Quando os bandeirantes chegaram, uma bateada rendia 15 gramas de ouro. Mas hoje, além da escassez, temos que lidar com os bichos, o fedor e a sujeira”, disse Romualdo Guimarães, que mexe com garimpo desde que se entende por gente. “Mas tenho sorte, viu. Sou vigilante à noite e só trabalho aqui de dia pra completar o dinheiro. E diferente de muitos colegas, nunca peguei doença”, contou ele, que é pai de quatro filhos.

“Isso aqui virou terra sem lei. É lamentável que uma cidade tão rica tenha cidadãos tão pobres”, acusou o guia turístico Elias Gonçalves da Luz. Segundo ele, de nada adiantam marketing e marcos se o turista corre o risco de presenciar uma cena daquela. “É motivo para nunca mais voltar e ainda falar muito mal”, afirmou. O presidente da Associação de Guias de Turismo do Brasil (AGTURB), Luis Otávio Trindade, também clama por melhorias, que devem ir além de medidas “para inglês ver”.

Longe do cheiro ruim e do garimpo predatório, Celso Neves, sócio do restaurante Rancho da Praça, no centro histórico, diz que o turismo ainda alimenta o caixa de seu empreendimento. Mas a fome que garante o sucesso do negócio é mesmo dos trabalhadores da mineração e empresas afins. “A cidade vive muito mais da atividade mineradora, fonte que garante os royalties e a maioria dos empregos”, disse.
Muitos visitantes já nem dormem no município. Hospedam-se em Ouro Preto e reservam um dia para passear em Mariana. Foi o que fez o casal de argentinos Jorge e Maria Cristina Rabiui. “Somos apaixonados por cidades históricas. Já rodamos por todo o mundo e tínhamos o sonho de conhecer Minas”, contou a advogada. Ela e o marido saíram do município vizinho pela manhã, em ônibus de linha, e até a hora do almoço estavam gostando do passeio. Acharam a comida pesada, mas saborosa, conheceram a Mina da Passagem, a maior mina de ouro do planeta aberta para visitação, e só reclamaram da dificuldade para encontrar um guia que falasse bem inglês ou espanhol.

Jaqueline Damas, do Hotel Providência, no mercado há mais de 30 anos, confirma que a procura por parte de turistas caiu. Mas a maioria dos quartos permanece ocupada. “Toda semana tem empresa hospedando seus funcionários conosco”, disse ela, acrescentando que raramente escuta alguém falando em Estrada Real.

Ouro Preto investiu na capacitação em turismo

Prima rica de Mariana e primeira cidade brasileira elevada a Patrimônio Cultural da Humanidade, em 1980, Ouro Preto recebe anualmente meio milhão de turistas. O município que é ponto de convergência dos três caminhos do circuito histórico está léguas à frente das demais cidades que integram o roteiro. Conta com infraestrutura, vias de acesso em bom estado, gastronomia excelente e hotéis e pousadas para todos os gostos e bolsos. Sinal de que, para quem já é famoso, pouco pesa fazer parte da Estrada Real.

No Solar Rosário Hotel, que já hospedou presidentes da República como Lula e Itamar Franco, a sensação é de que o trajeto não avançou. “Ouro Preto, por si só, já é uma joia. É preciso mais que tótens para fomentar a atividade turística”, disse a funcionária Carolina Martins. “O projeto é bacana e até trouxe turistas. Mas é necessário explicar melhor o produto. Muitas pessoas desconhecem até que o percurso não é feito de ponta a ponta”, detalhou. No Solar, a taxa mensal de ocupação varia entre 50% e 60%. Quase 70% dos hóspedes são estrangeiros.

Para Artur Passos, caçula da família proprietária da Pousada Colonial e do restaurante Bené da Flauta, a marca colabora para os negócios e para a cidade. “É uma expressão forte, mas só marketing não resolve”, advertiu, lembrando que não há, por exemplo, linha direta de ônibus entre Ouro Preto e Congonhas. Outra queixa é quanto à qualificação. Há três anos, um de seus funcionários teve curso de atendimento. Mas até hoje espera por um intensivo de inglês.

Ainda que em parte, em Ouro Preto, o investimento em capacitação foi uma das tarefas cumpridas pelos criadores do circuito - Secretaria Estadual de Turismo e Instituto Estrada Real, que mantém um centro de informação ao turista em plena Praça Tiradentes, onde não faltam mapas ou guias aptos para explicar roteiros e caminhos. Pelas ruas, o forasteiro que se atrever a perguntar encontra muitos trabalhadores que voltaram à sala de aula para treinamento.

A artesã Cecília Faustina Guimarães aprendeu sobre capitalização, lucro e investimentos. Durante seis meses, escutou o professor e adquiriu um conteúdo que até então desconhecia completamente. Como lição de casa, colocou os ensinamentos em prática e comemorou um crescimento nas vendas de 10%. E nem se desesperou quando teve um cisto na mão e foi obrigada a parar de produzir os artigos em pedra sabão. “Só mudei a forma de trabalhar”, resumiu, revelando que hoje compra peças de terceiros. “Tem sempre gente comprando”, disse ela, que em 2010 completa 25 anos de feira de artesanato.



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