Geologia e Ambiental

28 de fevereiro de 2011

Conversa de bar...


Paulo Paixão

Almas jazem sob as águas

Nosso bate-papo prosseguiu, mas, desta vez, no bar do Udinor aqui em Belém.
O amigo queria saber as novidades de Santarém.
Entre uma dose ou outra de cerveja e tira-gosto, ouvindo músicas regionais, conversamos:
- Desta vez, parceiro, fiquei chocado com o que presenciei no rio Curuá-Una, acima da barragem da hidrelétrica!
- Exatamente onde? - Atalhou o amigo confidente.
Sorvi mais um gole e o informei já um tanto pesaroso:
- Na localidade de “Porto Alegre”. Ficamos alojados por dois dias na hospitaleira casa do simpático casal, seu Amaral e dona Estrela. Mas assim que chegamos (eu e alguns amigos) deparamos de imediato com a imagem de desolação da natureza, em particular nas águas paradas do verde rio Curuá-Una.
- Conte tudo – disse o amigo transparecendo em seu semblante saber de antemão o que eu ia falar.
- O lindo rio de águas paradas, encimado por troncos e troncos secos e acinzentados, do que ante fora frondosas e verdejantes castanheiras (castanha-do-pará e sapucaia). Aquela paisagem de pós-guerra nuclear ferira nossos corações e arrancara lágrimas de todos nós.
O parente Udinor, também sorveu com ímpeto sua dose e desabafou:
- É isso, parente. Uma vez eu, Dário, Vivi, Nilson, Alírio, Alex, Clóvis Neves fomos naquele pedaço morto do rio fazer uma pescaria de mergulho. Sabe o que encontramos lá, parente, sob o fundo turvo das águas?
- O quê? Apressei-me a perguntar.
- Um cemitério, cujas cruzes, algumas já tombadas, foram testemunhas do massacre relâmpago e criminoso feito à natureza.
- Parceiro – completei, eu – e total desrespeito às almas que se foram e aos seus parentes que devem chorar por seus mortos e santuário sagrado. Parceiro? Eles hão de pagar! Nosso Senhor está vendo este tipo de mutilação e suas conseqüências já está ai nos noticiários do mundo todo. 
Continuou o Udinor:
- Encontramos casas, caiçara para o gado, vasilhas, cheiro forte de metano, etc. E muito tronco de pau apodrecendo... Em certas épocas parasitas infestam os peixes, principalmente o tucunaré (vermes) que os dizimam e prejudicam a sobrevivência dos abnegados e irredutíveis ribeirinhos.
Ficamos alguns minutos em atroz silêncio e por fim comentei:
- Muita gente não sabe que esse tipo de mutilação da natureza ocorre com a construção de hidrelétricas: morte de todo tipo de seres vivos (animais, insetos e plantas).
- Tal perversidade acontecerá em Belo Monte e, posteriormente, no rio Tapajós. Não adiantam as promessas da tecnológica de ponta, haverá, sim, grande impacto ambiental. Tais empreendimentos são nocivos à preservação da natureza e à continuidade da vida, em todos os seus sentidos, principalmente ao homem!
Voltamos daquele lugar remoto - onde as águas do Curuá-Una outrora se esvaíam intrépidas e cristalinas, agora, paradas e desoladas por léguas e léguas, sufocando sob seu peso a história milenar de uma floresta, antes bela exuberante – revoltados com a irresponsabilidade dos empreendedores capitalistas, que querem toda riqueza para si, à custa de vidas, tal como o vêm fazendo por toda a história humana.
- Parente, disse o Udinor, de hoje em diante pode escrever, serei um soldado ou mesmo um guerrilheiro que irei empunhar armas para defender das garras dos predadores capitalistas o último santuário intocado que existe no mundo... A nossa Amazônia, então, guerra aos projetos Belo Monte e Rio Tapajós. Vamos resistir!  

Postar um comentário