23 de junho de 2010

Vai Crescer e Aparecer



Principal preocupação de ambientalistas de todos os matizes na região Amazônica, o asfaltamento da BR-163 tem sido cercado de cuidados com a preservação da floresta.  Mas essa preocupação está longe de significar um freio nas pressões por desmatamento na região.
Criticado pela demora em tirar do papel o "Plano BR-163 Sustentável", o governo contratou alguns consórcios para supervisionar e garantir a implantação dos programas ambientais na região de influência da rodovia federal.  Até agora, porém, somente metade das iniciativas está em andamento, o que foi insuficiente para brecar o avanço da devastação na região.  Para chegar a 100%, serão necessários mais seis meses de trabalho.
"As estradas vicinais estão se expandindo.  A mudança no uso do solo é rápida e a integração dos órgãos do governo é muito difícil", diagnosticou o geógrafo Marcos Freitas, coordenador de 14 dos 21 programas da "BR-163 Sustentável".  O esforço ambiental do governo, segundo ele, "segura a estrada, mas não dá conta da dinâmica de ocupação da região" provocada pelo sonhado asfalto.
No comando de 120 pessoas e de um sistema de informações via satélite ao longo de 956 km entre Guarantã do Norte (MT) e Santarém (PA), Freitas aposta em "alternativas reais" ao cultivo de soja, à criação de gado e à extração ilegal de madeira.  O coordenador prega uma "mudança de modelo econômico" para, além de cumprir as exigências legais, ser "mais equilibrado" em sua aplicação.  "A 163 pode trazer ideias novas.  Mas se for só para proteger os 20 km da faixa de domínio, aí teremos problemas", afirmou.  "A soja não vai vingar, mas a pecuária extensiva está aumentando", disse Freitas, coordenador-executivo do Instituto Virtual Internacional de Mudanças Globais (IVIG) da Coppe-UFRJ.
A "nova ideia" defendida por Marcos Freitas é a aposta na cultura de dendê na região.  "É uma bela oportunidade.  Temos logística e vai gerar muito mais emprego e renda aos moradores locais", argumentou.  "O dendê gera até 10 empregos a cada 30 hectares e o boi dá um a cada 1 mil hectares".  Freitas calcula que o dendê da BR-163 seria suficiente para atender todo o sistema elétrico isolado do Norte do país, hoje abastecido por óleo diesel.  "Com 700 mil hectares de palma, ou apenas 1% da área degradada atual, é possível resolver o caso", disse o especialista.  Isso equivaleria, segundo ele, à metade de um ano de desmatamento médio registrado nos anos 1990.
Entusiasta da alternativa, Freitas dá outro exemplo: se o Brasil usasse uma mistura de 25% de biodiesel no óleo combustível, o país teria que canalizar 90% do óleo de soja produzido em território nacional.  "Por isso, precisamos do dendê.  E aqui é o lugar".
Dos programas mais importantes para convencer a população local da importância de preservar a floresta, Marcos Freitas aponta a educação em escolas, canteiros de obras e empresas da região.  "Mais do que tudo, é a educação, a consciência, que vai ajudar a preservar a Amazônia", argumentou.  O professor disse que as empresas que operam ou têm planos de operar na região terão que buscar um certificado de qualidade ambiental, tipo "ISO", para permanecer na região.  "E isso pode ser um trunfo que nos garantirá aliados preciosos", disse Marcos Freitas.
As ações sociais previstas no "Plano BR-163 Sustentável", porém, estão longe de melhorar a vida dos moradores locais.  "Rezamos dia e noite para isso aqui dar certo", disse Cleo Becker, dona de pousada em Castelo de Sonhos.
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