23 de março de 2014

O que dizer de um dia nublado como esse?



Mais uma crônica da professora Adriana Figueiredo:
O que dizer de um dia nublado como esse?
Pelo ponto de vista científico, diria que estamos no período das torrenciais chuvas amazônicas, tradição de todos os anos e que já estavam previstas no nosso calendário meteorológico. Isto, sem maiores detalhes. Ponto.
Vamos aos fatos:
Estamos vivendo um momento, considerado por muitos, como de imensuráveis avanços tecnológicos. Vejo da seguinte forma: estamos estagnados. Os avanços estão retidos. Ponto.
Começar uma frase com a clássica “em pleno século XXI...” eu diria que é inevitável.
Em pleno século XXI, vivemos problemas do século retrasado. O maior deles é que o homem, em sua prepotência, jurou que o dia chegou foi o domínio da natureza pela técnica. Se a técnica não está ao alcance da solução de problemas que dizem respeito à sobrevivência humana, ao resgate de vidas, então ela não é útil. Portanto, está estagnada.
Temos vivido no nosso município problemas de inundação, de violência doméstica, de violência urbana, desaparecimento de avião. Onde está a técnica?
A informação toma um alcance estrondoso, quando sabemos que, por exemplo, Austrália e até alguns países da União Europeia acompanham incessantemente as buscas pelo Baron e suas vítimas na Amazônia.
A informação é eficiente. E a técnica, onde está?
Na China, os satélites localizaram destroços do Boeing numa área até então considerada inóspita com imagens de satélite. Até onde entendo, os satélites cobrem a região amazônica também, sem contar as outras tecnologias que temos disponíveis para realizar tal captura.
Resumindo minha dúvida: é falta de técnica ou de interesse? Quem sabe se tratasse de um diplomata francês perdido na selva ou um médico cubano, a diplomacia brasileira, internacionalmente reconhecida pela sua placidez, cuidaria de providenciar medidas mais enérgicas.
No entanto, estamos falando de trabalhadores que cuidam da saúde de uma população que a maioria do país trata como caviar: só sabe que existe, mas nunca viu. Como tantos somos, trata-se de sobreviventes, não dos acidentes aéreos, mas dos acidentes diários de uma vida sôfrega e esquecida do Estado brasileiro de direitos.

Adriana Lima, bacharel em Geografia, professora de Meio Ambiente e Geografia.
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Post Scriptum do blogueiro:

Mais uma vez é cravado um prego na cruz.
Nós, que viajamos insistentemente via aérea nesta Amazônia, por diversos motivos e entre eles a falta de estradas transitáveis; a conservação tão defendida pelos ambientalistas desta Amazônia para que eles fiquem tomando um chopinho nas praias de Copacabana ou nos guetos de Nova York; o descaso de nossos governantes tão entusiasmados em manter a "união" do Pará e a desunião de seus moradores ou o "deitado eternamente em berço esplêndido" de nossos políticos, só podemos lamentar que tenhamos que assistir a crimes hediondos - não esquecemos do tríplice homicídio aqui ocorrido há 1 mês - ou a desastres diuturnos no ar, na terra e nos rios deste tão longínquo rincão.
E termos que, inertes, assistir a uma busca sem fim, de vidas.
Enfim, nosso modo de vida deverá sempre ser um exemplo de morte anunciada?

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