3 de março de 2014

E o que vai ser depois do Carnaval?

É com imenso prazer que começamos a publicar artigos de pessoas altamente capacitadas de Itaituba neste blog.
Desta vez, quem escreve  é Adriana Figueiredo, geógrafa e professora de meio ambiente e legislação ambiental. O tema escolhido não poderia ser mais fascinante: Itaituba e o crescimento econômico-social-ambiental.
Aproveitem:


E o que vai ser depois do Carnaval?

Hoje é segunda-feira, véspera de um carnaval que já começou há dias. É durante esse período que se manifesta na população do país o desejo de esquecer todos os males que assolam a população, de esquecer que nós vivemos num país cheio de coisas a serem melhoradas. Esse ano, mais do que os outros, será o ano de esquecermos tudo o que está acontecendo e correr pro abraço na hora do gol. Nada mais conveniente do que uma Copa do Mundo no ano das eleições, ou um Carnaval em pleno julgamento do STF. Não importa quantos foram absolvidos, o importante é que os foliões estarão sempre pulando.
Nada contra quem curte o carnaval, acho louvável quem consegue se divertir em períodos turbulentos. Parece que todas aquelas manifestações desapareceram de uma hora pra outra.
Mas, eu vim aqui escrever sobre outra coisa. Mais do que escrever, alertar.
Particularmente, nós, do município de Itaituba, também temos esquecido os últimos acontecimentos que acometeram a paz da nossa cidade. Analisando do ponto de vista de uma pesquisadora social e sobre alguns estudos que levantei sobre diferentes territórios, chego à conclusão que estamos revivendo alguns períodos pelos quais alguns lugares já passaram e que não puderam evitar. Já conhecendo a triste realidade destes lugares, será que não poderíamos tomar determinadas medidas para mitigar esses fatos lamentáveis, tanto sociais quanto econômicos ou ambientais?
Estou falando objetivamente da construção da Usina Hidrelétrica do Tapajós e de tantas outras obras que estão sendo especuladas e que já foram efetivadas.
Às vezes, andando por aí, ouço algumas pessoas dizendo: “É, pode ser ruim, prejudicial, mas a cidade vai desenvolver muito!”. Até onde se vê vantagem nessa frase? E desenvolvimento, o que é? Concordo que a cidade e seu entorno irão crescer, e muito. Vai crescer tanto que sua infraestrutura não vai dar suporte pro que estar por vir. Desenvolver e crescer são bem diferentes. Crescer a gente cresce em tamanho. Tome-se como exemplo o corpo humano, quem é que gosta de crescer engordando, ganhando gordura calórica? Não é mais saudável crescer ganhando massa muscular?
Em nossa cidade, não é mais saudável crescer com a segurança pública, a saúde e a educação acompanhando esse crescimento? Isto se chama desenvolvimento.
Lamentavelmente, temos visto constantes assaltos à mão armada, homicídios com requinte de crueldade, estupros, furtos, entre outros crimes bárbaros. Buscando a ficha dos acusados, a maior parte deles vem de áreas onde os projetos já estão em fase de construção, ou seja, de Altamira e Porto Velho, onde se considera que os maiores beneficiados em termos de trabalho já foram ‘escolhidos’. Agora, a população marginal (no sentido de viver às margens dos benefícios) está se deslocando em busca de outras oportunidades, e junto com ela vem toda a podridão.
Falando então dos benefícios econômicos, qual parcela da população está apta pra receber esses benefícios? Quem está desempregado por falta de qualificação ou quem está especulando terrenos pra construir casas de aluguel? E não adianta bater aquele velho papo que qualificação a gente busca. Busca sim, mas ela nem sempre está ao alcance de todos. As mães de família sabem melhor do que ninguém o quão difícil é cuidar das crianças, trabalhar fora e ainda ter que estudar à noite, saindo da aula e correndo o risco de ser assaltada ou estuprada, pois tem que andar uns três quilômetros até chegar em casa.
Quanto aos trâmites políticos realizados pra fazer acontecer a construção dos Aproveitamentos Hidrelétricos no Tapajós. Primeiro, existe uma coisa chamada desafetação, que autoriza que áreas pertencentes a Unidades de Conservação sejam utilizadas para os fins de sua obra.
O objetivo primordial de uma Unidade de Conservação, segundo a Lei 9.985 (SNUC) é a conservação de espaços territoriais e seus recursos ambientais, considerados relevantes para o equilíbrio dos ecossistemas.
Em primeiro lugar, o governo criou uma lei, a 12.678, de junho de 2012, autorizando a desafetação de 5 UC’s, sem ao menos o EIA-RIMA ter sido iniciado. No EIA-RIMA encontram-se as informações pertinentes aos elementos e recursos presentes nas áreas que serão afetadas, quais os possíveis impactos e a forma de evitá-los ou minimizá-los. Ou seja, a desafetação foi feita sem ao menos se ter indícios do que poderia acontecer com ela. Um dos possíveis e óbvios impactos é a inundação das rodovias Transamazônica e da BR-163.
Ué, parece que já vi essa cena na TV? Seria com a BR-364 em Rondônia? Por que será? Já se perguntaram porque está acontecendo tudo aquilo em Rondônia? E quem são os principais prejudicados?
Já se perguntaram o que vai ser de Itaituba depois do Carnaval? E os caixas eletrônicos que estão sem dinheiro? Já se perguntaram por quê?
Eu já me perguntei e eu mesma me respondi: estão sem dinheiro porque a polícia não tem contingente suficiente pra conter as frequentes tentativas de roubo aos bancos. Por quê? Porque a cidade está crescendo, mas não está se desenvolvendo.
Pensem nisso, itaitubenses. E não esqueçam, o nosso município não pode continuar do jeito que está. A violência só aumenta a cada dia. Isso tem que ter um fim.

Adriana Figueiredo Lima, geógrafa e professora de meio ambiente e legislação ambiental.
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