Geologia e Ambiental

29 de maio de 2010

Por Paulo Paixão: O lago do Maicá

O lago do Maicá



                              Caros leitores, lembram da música do Beto Paixão “Saudade do Maicá”? Pois é, vocês se recordam...Esse lago marcou a vida de nós meninos porque foi lá que aprendemos a pilotar um bote ou uma canoa. Foi lá que zagaiamos à luz de facho; foi lá que aprendemos sentar uma malhadeira e nos dar com piranhas e botos; foi lá que ensaiamos as primeiras bicadas de uma tatuzinho ou uma correinha na cuia de tirar água da canoa... Nas noites enluaradas de verão, caminhamos de lanterna na mão sobre relvas e espinhos de juquiri (correto?) nos alagadiços e restingas ou mesmo nos campos ao entorno do lago. Vi, uma certa vez, o Eduardo Serique de binóculo, caneta e um caderno observando e catalogando os espécimes voadores, que ali são tantos e, diga-se de passagem, não perseguidos.
                            Conta o meu tio Zé Silva, vaqueiro e pescador, que uma vez saiu para pescar com o saudoso Vivico (que tinha uma taberna lá na rua dos Artistas, freqüentada por gente como Mimi Paixão, Caim, Edil, Anastácio Miranda, seu Mereré, lembram?). O Zé ia em pé no fogão da canoa espreitando os peixes sobre o espelho das águas e lanceando, lanceando...O seu Vivico, só dizia ao Zé:
- Vai jogando a tarra...Vai jogando....
                            O Zé Silva,precisava fazer uma pausa para se recuperar do seu cansaço e o Vivico, só dizia: - Vai jogando Zé...Vai jogando Zé...
                            O pescador pensou com os seus botões: tenho que arrumar um jeito de ganhar um tempinho...pensou, pensou..., finalmente disse:
- Vivico me empresta teu fósforo.  Vou fazer e acender um porronca...
- Não Zé, te dou um cigarro do meu já aceso. Toma-o, vai tarrafiando..
                               Bem, o Zé não levou sorte desta vez. Continuou a tarrafiar, embora precisasse e logo de um descanso. Pensou mais uma vez e encontrou nova saída. Quer ver?
- Vivico, vamos encostar a canoa logo ali naquela ilha – apontou seu indicador na direção de uma ilhota verdejante – e vamos merender um destes peixes assado. Legal?
- Não Zé, não é preciso. Eu trouxe de casa uma sardinha (em lata) frita com ovo e farinha. Toma uma prova.  
                              É não teve jeito...Zé garantiu que pescaria com o Vivi nunca mais!
                             Bem gente, o lago do Maicá fica praticamente num bairro de Santarém, de mesmo nome. É um santuário natural onde se vê, a um passo da cidade: lindo lago de águas claras ou turvas, dependendo do regime das águas. Se a maré tiver para o Tapajós, suas águas ficam claras, se, porém, tiver para o Amazonas, as águas se tornam barrentas. Entenderam? Lá se vê bandos de curicacas, marrecas, ananaís e mergulhões, saboreando suas iguarias em toda a extensão que dá para o lago da fazendo do meu tio Bianor Carneiro (o Tico). Na parte do sítio que fica por trás da sua casa de campo, localiza-se um bosque de altas e velhas árvores amazônicas, de troncos grossos e retorcidos. Nos seus galhos mais altos vemos enormes espécimes de gaviões que ali fazem seus ninhos sem a interferência indesejada de humanos predadores.   
                             Eu sou testemunha. Meu tio Bianor enfrenta um entrevero tenaz com predadores humanos que tentam e até cortam suas cercas de arame, pra praticar suas agressões contra a natureza (plantas e animais). Ele mantém preservada, a duras penas, uma faixa de terra arborizada (floresta natural) num cinturão de aproximadamente trezentos metros de frente (a partir da encosta do lago) por oitocentos a mil metros de fundo. Meu tio já procurou o Ibama e outros órgãos governamentais que “protegem” a natureza, pelo menos para que deixassem afixar um Outdoor com os dizeres “área de preservação ecológica”, mas em vão. Tais Instituições não assinam em baixo. Acima de tudo esbarra-se com a burocracia, com o não, não, não... e o desinteresse sintomático de todos...
                            Sempre presenciei barcos de agências de turismo adentrando tais águas para o deleite dos turistas, entretanto, haverá o dia em que tudo aquilo tornar-se-á um imenso bolsão de pobreza: barracos de invasão, lixo e degradação. Deus nos livre desta predição, ainda queremos o ar, os rios, as árvores em plena alegria, vibrando ao vento, e enternecendo-se com o livre voar dos passarinhos...e uma música “Ai que saudade do Maicá, á, á. Ai, ai  que vontade de lá voltar!”  
    
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