11 de maio de 2010

"Obras e Serviços" e Muita Conversa Fiada

Da lavra do professor Manuel Dutra, para ler e cobrar dos nossos governantes:

Ainda soam nos meus ouvidos as palavras repetidas por Jáder Barbalho na última campanha em que ele foi candidato a governador. “Obras e serviços” foram o mote, do começo ao fim do debate com Almir Gabriel na TV Liberal.

Porém ainda reverberam as mesmas ou palavras parecidas pronunciadas também por Hélio Gueiros, Carlos Santos, Almir Gabriel, Simão Jatene, Ana Júlia. O próximo vai continuar? Pouca dúvida.


Essa conversa fiada demonstra uma redução do papel do Estado, como se este não passasse de uma empresa qualquer, prestadora de serviços e/ou realizadora de obras.

De tantas “obras e serviços” nos últimos 30 anos, o próprio jornal de Jáder Barbalho traz hoje uma manchete que desnuda o lare-lare de toda campanha: “No Pará, 65% das gestantes não fazem o pré-natal”. E as tantas “obras e serviços”?

Precisa mais? Quer dizer, no Pará, governado pelos “prestadores de obras e serviços” Jáder Barbalho, Carlos Santos, Hélio Gueiros, Almir Gabriel, Simão Jatene e Ana Júlia, tantas “obras e serviços” foram realizados que eles se esqueceram de que foram eleitos não para serem chefes de empreiteiras, mas para governar, o que significa algo muito maior do que a realização de obras e serviços, especialmente tal como dizem. Afinal, que obras? Que serviços? Onde estão tais benefícios num Estado que se acha na rabeira da fila da pobreza entre os demais Estados brasileiros?

Quando ouço a expressão “obras e serviços” as tomo como cortina de fumaça para esconder aquilo que deveria ser a ação de um governo. Prefeito e governador costumam festejar a construção de uma escola, de um posto médico, de uma rua. Mas não vejo festas para planos de formação de professores capazes de formar um novo cidadão; de médicos comprometidos com a saúde pública; menos ainda há festa para os esgotos e a água saneada que deveriam passar por debaixo do asfalto.

Os cientistas políticos com certeza darão um monte de definições para o verbo governar. Mas tenho absoluta certeza que nenhum deles reduzirá esse verbo a obras e serviços.

Governar é, antes de tudo, criar condições de auto-estima do povo, motivando pessoas e grupos à solução de seus problemas; governar é dedicar-se integralmente ao combate à corrupção e à máquina da propina oficializada; governar é ajudar os governados a acreditarem em si próprios; governar é indignar-se com tudo que atenta contra a dignidade humana, desde a imundície da feira do Porto da Palha e de tantas outras feiras imundas existentes por aí; governar é deixar de fazer promessa, é chamar as pessoas e os grupos organizados para que exprimam as suas necessidades, é dar ao povo oportunidade de dizer onde quer que o dinheiro dos seus impostos seja empregado.

Governar não é instruir, mas dar oportunidade ao povo para educar-se e, educado, seja capaz de perceber sua própria situação e partir para a construção de um novo modo de viver, produzir e reproduzir-se.

Governar é respeitar e promover o respeito e a dignidade, é promover a alegria que todos precisam sentir quando percebem que a vida se torna melhor não por causa, apenas e somente, de algumas “obras e serviços”, mas quando todos percebem que a coisa pública é encarada como tal, pública.
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