21 de abril de 2010

De Paulo Paixão: O progresso perverso

Ainda quando menino/adolescente assistia a bate-papos entre adultos sobre “o progresso para a Amazônia” e desde aquela época já ficava intrigado com a “noção de progresso” para certas pessoas, senão vejamos: 
- Olha gente, vamos sair desta ignorância e abraçar o progresso que chega! - A Transamazônica vem ai, ligando nossa Amazônia esquecida ao Brasil desenvolvido!
Depois que a gigante floresta estava sendo sangrada:
 - Vamos receber o nosso Presidente com festas, pois ele é o “arquiteto da Amazônia!”.
- Viva o Presidente? Viva! Viva!
Bem, eu mesmo, integrando um pelotão de soldados, incrivelmente bem arrumados, eretos, garbosos, perfilados para o hasteamento da bandeira nacional, lá na Serra do Piquiatuba, fiz minhas deferências formais ao Presidente “Arquiteto da Amazônia”, porém, fi-lo com um olhar hesitante e lábios entreabertos, denotando um certo sarcasmo e a sensação de que homenageava um governante déspota e nada afinado com a problemática amazônica, enfim, cumpri o meu dever patriótico como era mesmo o dever de um bom  soldado, sob a proteção do manto sagrado (?) do AI-5.

E esse “progresso” veio pra nossa região, principalmente com a complementação pertinente da Santarém-Cuiabá (BR-163), que a cortou em sentido vertical, formando a planetária cruz da redenção amazônica. Aquelas mega estradas “todas asfaltadas” abriram sucos ou estigmas, sentido leste-oeste e norte-sul na selva e dizimaram uma infinidade e ecossistemas; inúmeras populações indígenas; proporcionaram a migração de levas e levas de brasileiros do sul, nordeste, centro-oeste, que abriram vicinais, trilhas e veredas, que se fixaram ao longo da malha viária e que, por sua vez, derrubaram a mata e plantaram e escoam sua produção, procedimentos este que perduram até os dias de hoje.

Depois disto, vieram outros grandes projetos (megaprojetos) que proporcionaram e proporcionam o “progresso da Amazônia”, que integraram ou integram o Plano Plurianual do Governo Federal, eis alguns: o gasoduto Urucu-Porto-Velho; Perimetral Norte, Rodovia Cuiabá-Porto-Velho-Manaus, Grande Carajás, Usina hidrelétrica de Tucuruí, Alumínio de Bacarena (Alunorte), etc.

Sobre isso um calejado e eminente cientista e professor disparou:
- Desenvolvimento Sustentável? Progresso ou Pseudo-Progresso? Amigos, não se iludam: toda essa verba que é carreada para a implementação desses falsos projetos de desenvolvimento “sustentável” só sustentam mesmo e até engordam o bolso das multinacionais, bancos e indústria. Benefício para o cidadão comum, só mesmo o vale-alimentação, bolsa-isso, bolsa-aquilo.
- Sabem, vocês, o que esse engodo gera? Aumento das disparidades sócio-econômicas intra-regionais, a desintegração regional, síndrome da “Periferia da Periferia”, destruição da floresta tropical e degradação ecológica e social!

A propósito, certo dia, fui de férias a Santarém (como sempre vou, já ao longo de 14 anos), e fui surpreendido por uma nuvem negra de entristecimento ao presenciar conterrâneos e até amigos e colegas das peladas e dos bares da vida, defendendo, em forma de passeata de carros, a continuidade das madeireiras e da soja, repudiando toda sorte de protestos ecologistas (do tipo Greenpeace), em favor da sua bandeira milenar do conhecido “progresso” (entre aspas mesmo).


Você é daqueles que acredita que nada detém o homem no seu avanço inexorável de utilizar todos os recursos naturais disponíveis no planeta Terra a bem do chamado “progresso” ou desenvolvimento? Defende com “unhas e dentes” o sonho do Brasil se tornar uma “super potência” tal qual os EUA, hoje? Digamos você segue a corrente positivista, apostando toda sua ficha na ideologia do progresso? Acha, você, que é natural essa enorme fenda entre ricos e pobres e que isso deve perdurar para sempre?

Se você pensa assim, acreditando que tudo neste mundo pode ser manipulado pelo homem porque a ciência tem resposta pra tudo e nada, nada mesmo impede esse avanço inescrupuloso que não está nem ai para os problemas do cidadão comum e muito menos para a natureza, apóie com firmeza Belo Monte (que gerará emissão de “energia limpa”) tal qual proposto pelo Governo Federal e as elites representativas, e depois, continue apoiando a transferência desse mesmo modelo para o megaprojeto energético das hidrelétricas do Tapajós, que, a meu ver, cai na mesma vala-comum dos demais: beneficia tão-somente as multinacionais, um governo elitista, com objetivos elitistas e falsos, ficando pequenas migalhas para projetinhos sociais de cunho regional e empreguismo medíocre para meia-duzia de iludidos, e manda às favas o grito dos povos indígenas, do humilde colono, das plantas, insetos e animais. Seu malefício é bem maior: cria corredores de empobrecimento ao invés de desenvolvimento, devasta áreas densamente florestadas, provoca perda da biodiversidade e instabilidade climática e atropela sem dó nem pena as comunidades estabelecidas há décadas e as nações indígenas milenares etc.

O objetivo Geral do G-7 fora: “maximizar os benefícios ambientais das florestas de uma maneira que seja consistente com os objetivos de crescimento do Brasil” (Banco Mundial, 1994).

Fico, a título de reflexão, com o pensamento do cientista do INPA, que disse: “Por certo, o conjunto das espécies que vivem neste trecho do rio não sobreviverá sob um regime de vazão imposta por decreto ou norma administrativa” (sobre Belo Monte).

Brasil, basta de imposições! Queremos energia limpa sim! Mas também queremos lagos sem emissão excessiva de metano; queremos ouvir a voz dos ribeirinhos, índios e colonos; queremos nossa natureza inteira ou pelo menos restabelecida e com sistema de compensações consistentes; não queremos ninguém com prejuízo! Tudo, tudo de bom para o ser humano e toda a criação de Deus!

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