22 de janeiro de 2010

Ainda vem Mais Terremoto no Haiti

Para os cientistas, não foi surpreendente o novo tremor de terra ocorrido no Haiti ontem pela manhã. O abalo foi o mais intenso desde o terremoto há nove dias, que chegou a 7.0 na escala Richter. Ocorrido a 45km de distância do epicentro da tragédia de 12 de janeiro, o de ontem chegou a uma intensidade de 5.9 - segundo o US Geological Survey. O que impressionou especialistas foi essa magnitude para um efeito considerado secundário.

"Eram esperados outros sismos. São as ondas secundárias geradas a partir do primeiro grande impacto. Mas, geralmente, esse efeito é em menor grau. O de ontem é considerado de intensidade grave", explicou o professor do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília Lucas Vieira.

Outra hipótese levantada pelos especialistas para explicar o que está ocorrendo na região do Haiti é ainda mais preocupante: a de que o tremor de ontem não tenha sido uma fato secundário, e sim um abalo precursor de um outro ainda maior. A extensão da falha geológica onde a área está localizada poderia provocar um novo terremoto de magnitude entre 7.5 e 8.0 na escala Richter.

Assim que ocorreu o terremoto de 7.0, os geofísicos alertavam, já na semana passada, que a terra na região continuaria de alto risco e de que outros tremores viriam. A partir do primeiro, foi gerada uma série de outros, secundários. Nos últimos dias, foram registrados 50 de menor magnitude. As placas tectônicas estão se movimentando e vão continuar provocando sustos.

Os especialistas explicam que não é possível ocorrer um outro forte abalo no mesmo ponto onde houve o primeiro e o de quarta-feira (20/1), já que, ali, as forças comprimidas na camada subterrânea já teriam sido liberadas.

Como uma casca de laranja, a superfície da terra tem imperfeições. Existem áreas mais grossas e outras mais finas. O Haiti está localizado num desses pontos frágeis. Por isso, os tremores provocados pela liberação da energia acumulada no interior da terra foram tão fortemente sentidos. O Haiti fica em cima de uma região de falha geológica, na borda da placa tectônica do Caribe, que está em constante atrito com a placa norte-americana. Ou seja, está sobre uma bomba-relógio.

A partir de 4.5, os tremores são considerados muito perigosos, se ocorreram em regiões urbanas. "Pela localização, Haiti e República Dominicana sempre estarão sob o risco de uma tragédia", explica o geofísico e professor da Universidade de Brasília João Willy. Jamaica e República Dominicana também poderão sentir os efeitos dos tremores, e até sofrerem grande abalo, já que estão na área geológica cujas placas estão se movimentando em decorrência dos terromotos no Haiti.

Para os cientistas, o terremoto que arrasou o Haiti era previsível. Um grupo de sismologistas já havia alertado, em março de 2008, para o perigo no local. Nos últimos meses, a região vinha sendo sacudida por diversos tremores, de magnitude entre 3 e 5, considerados "alertas da natureza". Apesar de ser uma região de alto risco sísmico, as construções na área são frágeis, despreparadas para suportar os tremores.


Durante quase todo o século 20 (entre 1901 e 1998), morreram cerca de 4 milhões de pessoas devido a cerca de 45 mil catástrofes naturais. Terremotos, tsunamis e deslizamentos são responsáveis por 51% dessas mortes. Enchentes vêm em segundo lugar, seguidas de tempestades tropicais. Ásia e Pacífico são as regiões mais afetadas pelos desastres da natureza. Não existe, porém, lugar algum no mundo imune a terremotos. Nem mesmo o Brasil.

Já foram registrados, no país, tremores de terras no Rio Grande do Norte, em Mato Grosso e até no Distrito Federal (em 2000, da magnitude 3.0). No entanto, a intensidade é menor - e eles são raros. "O que temos são regiões de maior e menor risco no planeta. O Brasil está entre as que têm baixíssimo risco. É praticamente impossível acontecer um terromoto de magnitude 8.0, por exemplo", aponta o professor de Geociências da UnB Lucas Vieira.

Na Amazônia, já chegou a ser registrado um abalo de 7.1, mas, por ter ocorrido em grande profundidade, não foi tão sentido. O homem não tem como evitar a ocorrência de terremotos, mas pode amenizar os danos provocados por eles e reduzir o número de vítimas com planos de prevenção. As áreas de instabilidade já são conhecidas pelos cientistas.

Regiões como essas devem se preparar para enfrentar terremotos com construções reforçadas e população removida para tendas, já que são os desabamentos que causam as mortes, dizem os especialistas.

Exemplo disso foram os tremores que ocorreram no Irã e nos Estados Unidos em 2003, com a mesma magnitude de 6.5 do terremoto de 12 de janeiro no Haiti. No Irã, o abalo matou 42 mil pessoas. Nos EUA, mais especificamente na Califórnia, apenas duas pessoas. A explicação está na sismoengenharia. Nos Estados Unidos, as construções estão mais bem preparadas para suportar abalos.

Os terremotos são cíclicos. Ocorrem conforme o acúmulo das forças comprimidas. A surpresa dos grandes tremores fica por conta do momento exato em que vão ocorrer, porque podem ter intervalos de até mil anos. E não há tecnologia para prever. "A região do Haiti é ativa e sempre será", explica o geofísico João Willy.

O maior terremoto registrado na história moderna da sismologia foi na Cordilheira dos Andes, no Chile, em 1960, com magnitude 9.5 na escala Ritcher. O de 2004, em Sumatra, chegou a 9.1. Para se ter uma ideia, o poder de destruição de um terremoto de magnitude 7 numa região urbana equivale à explosão de 30 bombas atômicas como a detonada em Hiroshima, na Segunda Guerra Mundial.

(Samanta Sallum)
(Correio Braziliense, 21/1)
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