28 de julho de 2010

PETRÓLEO, CAPITALISMO E DESASTRES


Argemiro Pertence

Uma maneira empregada pelo atual capitalismo para ganhar um pouco mais de fôlego para tentar sobreviver tem sido o emprego de técnicas que minimizam riscos ambientais, reduzem as possibilidades de falhas em equipamentos aumentando sua segurança operacional e as que contemplam seus empregados com alguns benefícios de ordem salarial direta ou indiretamente.

Esta mudança de visão por parte do grande capital deve-se a uma corrente de consultores que tem defendido a tese de que um tripé de investimentos em segurança, proteção ambiental e reconhecimento do desempenho dos trabalhadores representa, de fato, um ganho para a empresa. São investimentos com retorno assegurado por períodos de operação mais longos, sem as inesperadas paradas para manutenção e reparos, por operações mais seguras do ponto de vista ambiental com a consequente ausência de problemas com a fiscalização cada vez mais presente em todas as partes do planeta e, evidentemente, com trabalhadores motivados e satisfeitos por terem reconhecida sua competência, através do aumento do único valor cultivado pelo capitalismo: o dinheiro, direta ou indiretamente.

No recente e catastrófico acidente com a sonda de perfuração Deepwater Horizon, alugada e operada pela BP (ex-British Petroleum) com apoio da Halliburton, no Golfo do México, esta tese está sendo confirmada. A BP optou por realizar a operação de perfuração de um poço em águas profundas sem levar em conta a segurança do processo empregado, reduzindo o uso equipamentos necessários e empregando equipamento sabidamente defeituoso. Que motivos levaram a empresa a agir deste modo? Segundo o que já foi apurado por Comissões de Investigação do Congresso dos EUA, os motivos da BP foram exclusivamente econômicos, já que a sonda era alugada e o cronograma de perfuração do poço estava atrasado.

Vale salientar que todos esses desvios dos padrões aceitáveis da indústria do petróleo, nas condições em que ocorreram, aconteceram por negligência de uma empresa de petróleo centenária com sede no chamado `Primeiro Mundo` e no espaço geográfico de um país do também chamado Primeiro Mundo. Nele, falharam a empresa e as autoridades dos EUA que autorizaram a empresa a operar nestas condições. Resultado: 11 empregados mortos, milhões de barris de petróleo poluindo o mar, praias e manguezais, milhares de pessoas sem poder exercer suas atividades profissionais na pesca e na captura de animais nos manguezais. Sabe-se lá por quanto tempo!

O péssimo exemplo da BP faz-nos pensar na Petrobrás. De modo diverso, a maior empresa brasileira não se descuida dos equipamentos. Estes trabalham com total confiabilidade. A falha de Petrobras, segundo o critério dos consultores de empresas, é o seu descuido com seu pessoal. Depois de ter um sistema de remuneração direta e indireta dos melhores, a Petrobrás, justamente no momento em que passou a ter concorrentes com o fim do monopólio estatal por ela exercido em nome da União, decidiu desmotivar seus empregados. Os salários pagos por ela a técnicos de alta capacidade chegam a ser 30% dos salários pagos pelas suas concorrentes; o fundo de pensão custeado por ela e pelos empregados passou a incorporar as incertezas do mercado, tornando-o pouco atraente a novos empregados necessários à renovação da empresa; o plano de assistência médico-odontológica da empresa caminha a passos largos para a redução de cobertura ou para a extinção.

Tudo isto ocorre, repito, num momento em que a empresa precisa, mais do que nunca, de empregados capacitados e motivados para retê-los nos seus quadros e para que esta possa com sucesso enfrentar suas concorrentes num cenário de competição cada vez mais exacerbada.

No caso da BP, o motivo da falha foi econômico. No caso da Petrobrás há, além desse, outros dois motivos: incompetência e má-fé.

Argemiro Pertence é engenheiro, ex-vice-presidente da AEPET e
comentarista internacional do programa `Faixa Livre` (Rádio Bandeiras
1360 kHz - AM - Rio de Janeiro, 8 às 10 horas.
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